Featured

🇬🇧 Cultural nomadism - a lifestyle

We can move from a place to another for various reasons. One of them is to know better other cultures, to become a global citizen. Other is ...

Thursday, 7 July 2022

🇧🇷 Uma reflexão sobre a palmada

Tenho vários seguidores com filhos pequenos e resolvi compartilhar uma reflexão sobre palmadas, um recurso que muitos pais utilizam no Brasil para “educar” seus filhos e é crime (mesmo no Brasil!). A reflexão serve de alerta para pais de qualquer parte do mundo para que encontrem um caminho mais inteligente para educar seus filhos. Serve também como aviso àqueles que acham natural dar palmadas nos filhos e pensem em mudar para outro país, onde podem ser punidos por sua agressividade e preguiça de questionar padrões familiares.

Eu sou formada em comunicação, não em psicologia, mas entender um pouco de psicologia faz parte do meu trabalho e do conteúdo que aprendi na universidade e sigo estudando depois da graduação. É fundamental ter uma boa noção de psicologia para desenvolver uma boa comunicação. E todo esse texto tem por base a comunicação, que é influenciada pela psicologia. É sobre o que um pai ou mãe comunica a um filho quando dá uma palmada e várias coisas relacionadas a isso, tanto do lado do emissor (o pai ou mãe) como do receptor da mensagem (o filho). E também sobre causas e consequências.

Vou usar o termo pai com frequência, mas toda a reflexão vale para mães, avós, responsáveis, babás, etc.

Pais que dão palmada nos filhos ou mesmo dão outras formas de castigo normalmente o fazem porque a criança não fez algo que os pais queriam ou como os pais queriam. Ao menos nunca ouvi falar de outras situações que envolvam palmadas e castigos. Vou falar só das palmadas daqui por diante, mas a lógica é a mesma pros castigos.

Vale observar que atualmente nem mesmo cães são treinados por adestradores atualizados com métodos de punição física. Os melhores adestradores trabalham com adestramento positivo. Que motivos te levam a tratar seus filhos pior do que cachorros?

Pense bem: o que um pai ensina para uma criança quando bate nela porque ela não fez o que ele queria?

Eu não consigo pensar em uma única coisa positiva que ele ensine desta forma. Talvez quem levou palmada e nunca trabalhou essa questão com suporte da psicologia olhe para si mesmo e se ache um ótimo exemplo de ser humano e por isso vai citar como resposta as qualidades que vê em si, porque não vê as consequências negativas daquele ato. E assim essa pessoa segue cega ao dano que vai causar.

O que eu percebo, como profissional de comunicação, é que o pai que dá palmada está ignorando quem a criança é, as necessidades e limitações dela, pra citar alguns pontos. Ele usa da agressão (a palmada) para comunicar a sua frustração por a criança não ser como os bonequinhos que ele brincava quando criança que faziam tudo que ele queria (ao menos na imaginação dele, porque bonecos também têm limitações como não falar e não mover os cotovelos). A criança não tem culpa nenhuma da incapacidade do pai de ver e aceitar quem ela é.

Chamo a palmada de agressão porque pode não deixar nenhuma marca física, mas deixa marcas emocionais. Uma delas é justamente a pessoa que levou palmada na infância querer comunicar sua frustração com quem vê o mundo diferente dela através da agressão, incluindo continuar o ciclo familiar de agressão dando palmada nos seus filhos. A tal “lei do mais forte”, como se alguém só pudesse ser respeitado se fosse fisicamente mais forte que os demais. Isso inclui atitudes como aqueles “mass shootings” que ocorrem com alguma frequência nos EUA, de jovens atirando e matando vários colegas e professores nas escolas. Antes de dar uma palmada num filho pense: É esse tipo de filho que você quer criar?

Palmada não gera respeito, gera medo e desconfiança. Respeito se conquista de outras formas. Pense em quantas pessoas são respeitadas por sua inteligência, por seu talento, por sua autenticidade e por outras qualidades que nada têm a ver com força física. Muitas delas, qualidades que qualquer pessoa pode desenvolver. A lei do mais forte pode ser necessária para animais selvagens lidarem com outros animais. Não para humanos lidarem com outros humanos. É necessário enfrentar de frente essas visões equivocadas que aprendemos por termos tido uma criação cheia de falhas para quebrar o ciclo de violência. Tirar os pais do pedestal e ver o dano que eles nos causaram porque são humanos e tinham menos recursos que nós temos hoje para entender a si mesmos. Ou muito preconceito quanto a isso.

Uma pessoa que aprendeu a comunicar sua frustração em forma de palmada/agressividade pode, com essa reflexão simples, perceber como pode ser verdadeiramente respeitada.

Pais são os adultos da relação e devem saber se expressar e tentar entender o que a criança comunica com cada atitude. É importante ter maturidade emocional para isso antes de ter filhos ou os pais, por sua inabilidade de comunicação, podem causar sérios traumas aos seus filhos.

Agora vamos analisar o outro lado da questão do que a palmada ensina aos filhos para refletir sobre como ter um resultado melhor que a palmada. Imagine um pai que buscou ajuda para lidar com a forma como foi criado, entender como isso afeta seu comportamento e evitar transmitir os próprios traumas aos filhos. E vamos focar no tipo de adulto que o pai quer que essa criança se torne.

Uma pessoa emocionalmente madura não quer um filho igual a si mesma. Ela tem a consciência de que cada ser humano é único e quer contribuir para o filho desenvolver suas qualidades naturais. Para isso ela vai ouvir de verdade o filho. Entender suas expectativas, suas limitações, seus desejos e frustrações e tentar ajudar esse filho a lidar com isso. Sem violência, seja ela física ou emocional, e sem atitudes abusivas.

O Brasil tem uma cultura de normalizar a violência justamente porque ela começa em casa e a família é colocada num pedestal como se fossem pessoas perfeitas. O avô dava palmada no pai que bate na esposa que bate no filho pequeno que quebra os brinquedos ou faz crueldades com o cachorro ou com colegas mais fracos e poucos param para refletir sobre o próprio comportamento e mudá-lo. Essa onda de homens marombados na mídia também é, em parte, consequência disso, dessa necessidade de autoafirmação através da força física que começa com uma “inocente” palmada. Aparentemente, a cultura dos Estados Unidos não é muito diferente da brasileira neste ponto.

Como mudar esse padrão de comportamento e ter uma comunicação mais eficaz e realmente acolhedora? Como desenvolver um comportamento que torne a palmada desnecessária?

Pra começar, olhar para si mesmo, diariamente, observar os próprios pensamentos e sentimentos e ouvir a si mesmo de uma forma que muitas pessoas não fomos ouvidas e acolhidas na infância e buscar referências diferentes para mudar comportamentos que causam mal a si e aos outros. Investir em autoconhecimento, de preferência com apoio de um bom psicólogo para entender os motivos de agir de determinada forma diante de determinada situação. Todos nós temos padrões de comportamento que surgiram de algum lugar. Se você nunca se questionou, é hora de começar. 

O pai que antes de bater no filho se questiona sobre o motivo real dele querer bater na criança e as consequências disso para o filho tem alguma chance de chegar a respostas que não perpetuem a violência e que acolham o filho como ele é, lapidando-o para tornar-se um ser humano mentalmente forte, independente, capaz de tomar decisões de forma madura e inteligente, respeitando as pessoas. É muito importante ouvir o filho, criar conexão emocional com ele, e respeitá-lo como indivíduo. Permitir-se aprender a ser pai com seu filho. Permitir-se conhecer seu filho, despindo-se das expectativas e vendo quem ele é. Isso atrai respeito real, algo que a palmada é incapaz de oferecer. Seus medos são problema seu e você tem obrigação de resolvê-los ou ao menos não transmiti-los aos seus filhos através de atitudes irracionais.

Uma criança é um cidadão e vários países civilizados respeitam os direitos delas. Você deveria respeitar também. Ou não ter filhos.

Este conteúdo, bem como todos os outros deste website, é protegido por direitos autorais. Todos os direitos são reservados à autora.

Se você administra uma empresa relacionada aos temas tratados neste website, principalmente no Brasil e no continente europeu, ou quer divulgar seus serviços, leia o kit de mídia para saber como divulgar seus produtos e serviços em nossos canais de comunicação.


Nycka, the Nomad




No comments:

Post a Comment

Comment here

Popular Posts: